Vício em apostas acende alerta de saúde pública; perigo já afastou milhares das bets.

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Perda de controle, adoecimento mental, endividamento e destruição de famílias colocam as bets no centro do debate da saúde mental.

Publicado: 11 Junho, 2026 - 13h08 | Última modificação: 11 Junho, 2026 - 13h20 - Escrito por: Walber Pinto | Editado por: Rosely Rocha.

 

Por trás das falsas promessas de dinheiro fácil, dos anúncios com celebridades e dos jogos acessíveis cresce no Brasil um problema que especialistas, profissionais de saúde e autoridades públicas tratam como uma questão de saúde pública, devido aos impactos do vício em jogos sobre a saúde mental, a renda das famílias e a vida social dos apostadores.

Os impactos vão muito além das perdas financeiras. Envolve destruição de patrimônios, ruptura de famílias, violência doméstica, suicídios e até a prática de crimes motivados pelo desespero para continuar apostando ou pagar dívidas acumuladas.

A dimensão do problema começou a aparecer de forma mais clara nos dados levantados pelo UOL, que revelou que aproximadamente 250 mil trabalhadores e trabalhadoras deixaram as bets, ou se autoexcluíram, se afastando das plataformas de apostas em razão de problemas de saúde mental relacionados ao vício em jogos.

Outro levantamento da Secretaria de Prêmios e Apostas, órgão vinculado ao Ministério da Fazenda, que corresponde às remoções voluntárias dos CPFs (Cadastros de Pessoas Físicas), os brasileiros realizaram mais de 603 mil pedidos de autobloqueio das bets (veja abaixo como proceder). O balanço corresponde às remoções voluntárias dos Cadastros de Pessoas Físicas (CPFs) dos ambientes de apostas regulamentados desde dezembro do ano passado. Esses números evidenciam a gravidade do fenômeno e sua capacidade de afetar não apenas indivíduos, mas toda a sociedade.

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Os dados reforçam o que especialistas em dependência vêm alertando há anos: a compulsão por jogos não é uma simples falta de controle financeiro. Trata-se de um transtorno reconhecido pela medicina, capaz de alterar comportamentos, comprometer a capacidade de tomada de decisão e produzir mecanismos cerebrais semelhantes aos observados em dependências químicas.

Quando o entretenimento se transforma em doença

O vício em apostas, conhecido clinicamente como transtorno do jogo, é classificado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e por manuais internacionais de psiquiatria como um transtorno comportamental que afeta diretamente os circuitos de recompensa do cérebro. O processo costuma seguir um roteiro conhecido.

O apostador ganha uma quantia inicial, experimenta uma sensação intensa de satisfação e passa a acreditar que pode repetir o resultado. Quando começam as perdas, em vez de parar, ele frequentemente aumenta os valores apostados na tentativa de recuperar o dinheiro perdido. É o chamado “comportamento de perseguição da perda”, considerado um dos principais sinais da dependência.

Com o tempo, o jogo deixa de ser lazer e passa a ocupar espaço central na vida da pessoa.

Contas deixam de ser pagas. Compromissos profissionais são negligenciados. Relações familiares entram em colapso. O dinheiro destinado à alimentação, aluguel, educação dos filhos ou financiamento da casa própria passa a ser direcionado para novas apostas.

A lógica é semelhante à observada em outros tipos de dependência, mesmo diante de consequências evidentes e devastadoras, o indivíduo perde a capacidade de interromper o comportamento sozinho.

Uma bomba dentro das famílias

Os efeitos do vício em apostas não ficam restritos a quem joga. Em milhares de lares brasileiros, a compulsão tem provocado uma sequência de consequências econômicas e sociais que especialistas já classificam como um problema coletivo.

Relatos de famílias afetadas incluem perda de veículos, venda de imóveis, utilização de limites bancários, contratação de empréstimos sucessivos e comprometimento de toda a renda familiar. Muitas vezes, os parentes só descobrem a situação quando as dívidas atingem níveis insustentáveis.

Especialistas também apontam uma correlação preocupante entre o endividamento extremo provocado pelo jogo e o aumento de conflitos domésticos, violência familiar e práticas ilícitas utilizadas para obter recursos financeiros.

Em alguns casos, a busca desesperada por dinheiro leva ao uso indevido de recursos de terceiros, fraudes, apropriações indevidas e outros crimes que têm origem direta no ciclo de perdas e tentativas de recuperação.

O impacto na saúde mental e no mercado de trabalho

A reportagem do UOL, ao apontar que cerca de 250 mil pessoas precisaram se afastar das bets em decorrência de problemas de saúde mental relacionados às apostas, trouxe à tona um aspecto frequentemente ignorado no debate público.

O vício não afeta apenas o bolso. Ele produz ansiedade, insônia, irritabilidade, depressão, crises de pânico e, em situações mais graves, pensamentos suicidas. À medida que as dívidas crescem e o controle sobre a própria vida diminui, muitos apostadores entram em um estado permanente de sofrimento emocional.

O ambiente de trabalho também sente os efeitos com a queda de produtividade, absenteísmo, dificuldades de concentração e afastamentos médicos passaram a fazer parte da realidade de empresas que convivem com trabalhadores afetados pela compulsão em jogos.

O fenômeno gera custos econômicos relevantes para empregadores, para a Previdência Social e para o sistema público de saúde.

Governo Lula implementa medidas voltados à proteção dos apostadores

Diante da expansão acelerada das apostas online e do aumento dos relatos de dependência, cresce o entendimento de que o enfrentamento do problema não pode ficar restrito à responsabilidade individual dos usuários.

Nesse contexto, o governo do presidente Lula implementou mecanismos voltados à proteção dos apostadores. Entre eles está a Plataforma Centralizada de Autoexclusão, ferramenta que permite ao cidadão solicitar voluntariamente o bloqueio de seu acesso aos sites de apostas regulamentados. A medida funciona como uma barreira de proteção para pessoas que reconhecem estar perdendo o controle e desejam interromper o ciclo compulsivo.

Outra medida adotada pelo governo federal foi a de impedir que beneficiários do Bolsa Família possam utilizar o cartão para jogar. Um levantamento do Tribunal de Contas da União (TCU) apontou que a transferência dos beneficiários para as bets chegou a R$ 3,7 bilhões, em janeiro de 2025 – o montante corresponde a 27% dos R$ 13,7 bilhões distribuídos pelo programa naquele somente naquele mês.

Sociedade civil se mobiliza para divulgar a autoexclusão

Paralelamente às ações do governo federal, movimentos da sociedade civil vêm ampliando a conscientização sobre os riscos associados às apostas.

Uma das iniciativas de maior repercussão é a campanha “Block no Tigrinho”, que tem utilizado a Plataforma Centralizada de Autoexclusão como instrumento de combate ao vício em jogos.

A campanha ganhou visibilidade nacional com a adesão de diversos artistas, influenciadores e personalidades públicas, que passaram a divulgar mensagens de alerta sobre os riscos da compulsão e a importância de buscar ajuda.

O foco da iniciativa não está apenas em um jogo específico, mas na conscientização sobre um fenômeno que afeta milhares de brasileiros e suas famílias.

Ao estimular o uso da autoexclusão, a campanha contribui para tornar mais conhecida uma ferramenta que pode representar o primeiro passo para a recuperação de pessoas que já não conseguem interromper sozinhas o hábito de apostar.

 

Fonte: https://www.cut.org.br/

Link da noticia:

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